8 Jul 2000|C&L
Edgar Cardoso
Desdenhava dos grandes rivais, os computadores, e da análise matricial: "Dizem que há para aí quem use umas meretrizes..."
Edgar António de Mesquita Cardoso nasceu no Porto em 11 de Maio de 1913. Em 1937 formou-se em Engenharia Civil na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto contando, no seu palmarés, com o título de Professor Catedrático do Instituto Superior Técnico de Lisboa e o de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil. Até 1951 foi Engenheiro na Junta Autónoma das Estradas, mas é como projectista de Pontes que mais se notabiliza.
Os primeiros anos
Em 5 de Agosto de 1935, Edgar Cardoso recebe guia para realizar o seu primeiro estágio no Porto de Leixões, para o estudo do assoreamento do Porto sob a orientação do Engº Gervásio Leite, Director Técnico da APDL. O relatório que deu entrada na Faculdade em 23 de Outubro, foi apreciado e classificado com 16 valores pelos Prof.s Teotónio Rodrigues e Antão de Almeida Garrett. O Relatório revela um excelente trabalho, muito ilustrado com desenhos à mão livre de muito boa qualidade.
Na introdução inicial, pode ler-se:
"Segundo instruções da nossa Faculdade de Engenharia a que pertenço como modesto aluno e vós Meus Mestres, como Professores altamente categorisados, recebi com agrado no dia 5 de Agosto a guia de apresentação para na Administração dos portos do Douro e Leixões efectuar o meu primeiro estágio. Sem a experiência e o saber tão precisos ao Engenheiro, iniciei nesse mesmo dia o meu primeiro trabalho que apesar da atenção e da boa vontade, sempre aplicada para a sua perfeita execução, terá fatalmente que ser defeituoso."
"Peço portanto aos meus Exmos. Professores que me relevem os erros cometidos, na certeza, porém, que a sua existência não é resultante da falta de assiduidade, nem da minha menos curiosidade de saber, mas antes da inexperiência e limitados conhecimentos do assunto que me foi dado estudar."
Edgar Cardoso realizou ainda pelo menos um outro estágio em Bragança na JAE, já em 1937, ano da formatura em Engª Civil. Não dispomos do correspondente relatório, mas há um outro notável documento académico: o relatório de um trabalho prático da disciplina de "Cimento Armado" que consistiu no cálculo completo de uma piscina. Mais uma vez se revela um aluno aplicado, com excelente sentido de projecto e novamente desenhos muito bons.
Experimentação
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Dotado de um extraordinário engenho e habilidade manual, construia modelos das suas estruturas e nelas media, muitas vezes com métodos ou aparelhos inventados por si, os parâmetros necessários à avaliação do comportamento estrutural.
Esta era uma das suas facetas mais características. Para ele as estruturas projectavam-se usando as mãos, experimentando, ensaindo diversas formas em modelo. E desdenhava dos grandes rivais, os computadores, e da análise matricial: "Dizem que há para aí quem use umas meretrizes..."
O dimensionamento experimental veio mesmo a ser aprovado oficialmente como uma das vias possíveis para a justificação de um projecto, depois de um projecto seu ter recebido um parecer positivo do Conselho Superior de Obras Públicas, de que foi relator o Professor Francisco Correia de Araújo.
Temperamento
O professor Edgar Cardoso, verdadeiramente genial como engenheiro, tinha um temperamento difícil que lhe grangeou inimizades, sobretudo entre colegas cujas opiniões nem sempre aceitava bem.
Naturalmente ciente da sua indiscutível categoria, não gostava de ser batido. Talvez por isso orgulhava-se de não participar em concursos, preferindo os trabalhos "por convite".
Com frequência se envolvia em polémicas em que a defesa veemente do seu ponto de vista ultrapassava os limites do razoável.
Conta-se que numa reunião de obra durante a construção da Ponte da Figueira da Foz, algum jovem engenheiro terá sugerido uma alteração a uma indicação do "Professor". Logo se irritou: "Ó meu amigo! Em Portugal só há uma pessoa de quem aceito sugestões: o Prof. Joaquim Sarmento da Faculdade de Engenharia do Porto."
Recentemente, envolveu-se em acesa polémica com o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) por discordar das conclusões relativas à segurança da pala de cobertura das bancadas do Estádio de Alvalade, em Lisboa.
Numa aparição televisiva mediática, provou a segurança da estrutura com métodos de cálculo próprios e com uns convictos "saltos" sobre a placa.
As obras
Corria o ano de 1963 quando gente de todo o Mundo convergiu para a cidade do Porto, para ver cair a ponte da Arrábida no dia da sua inauguração. Já lá vão 37 anos, e o que na época era o maior arco de betão pré-esforçado do planeta continua firme. A queda do regime fez com que o expulsassem do ensino: "Quando surgiu o 25 de Abril, correram comigo do Ensino, acusando-me, à falta de outros argumentos, de ter projectado a ponte da Arrábida para o regime fascista".
Em 1980 moveram-se influências para que regressasse à cátedra, inclusivamente a pedido do presidente da República, Ramalho Eanes. Concordou em voltar, desde que lhe pagassem os ordenados atrasados. Deram-lhe cerca de mil contos, aplicados na criação da Fundação Edgar Cardoso, para incentivar os jovens engenheiros que pretendessem especializar-se no ramo das estruturas, fundamentalmente em pontes. Continuou a leccionar até 1984, e todos os seus vencimentos reverteram a favor da Fundação.
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Edgar Cardoso deixa a sua assinatura em mais de 500 pontes, dentro e fora do território nacional, como por exemplo a Ponte Macau-Taipa. Uma das mais expressivas foi a ponte ferroviária de S. João, no Porto, também ela construída com técnicas próprias inovadoras: "Eu inovei em todas as obras e, por isso, nunca fui compreendido", disse um dia.
Morre aos 87 anos, o mais emblemático Engenheiro português e também o mais
controverso. Será lembrado como um dos maiores génios da Engenharia Civil
portuguesa.